A fotografia para o fotógrafo - Paulo Marcos


Essa semana decidimos iniciar uma nova sessão aqui no blog. Vamos conversar com diversos fotógrafos e trocar uma ideia sobre a profissão, futuro e comunicação. Pega o seu café, sentá aí e aproveita a conversa que tive com Paulo Marcos, sócio-diretor e fotógrafo do Ateliê Oriente, um espaço carioca dedicado à fotografia, arte e cultura:

- Qual a diferença da pessoa que tira foto para o fotógrafo?

Todo mundo tira foto. Mas quando que essa tiração de foto vira uma fotografia? É uma fronteira muito sutil e muito enevoada. É difícil saber o que é uma coisa e outra. Porque como o mundo hoje está encharcado de imagens fotográficas de todos os tipos, existem todos os tipos de pessoas utilizando e fazendo a imagem fotográfica. O Instagram não tem um negócio assim, que dura 24 horas? Quer dizer, qualquer que seja a intenção da pessoa que fez aquela foto, que tirou aquela foto, ela pode se tornar uma fotografia num campo das artes plásticas ou da arte contemporânea, ou até mesmo da realidade expandida. Então a imagem fotográfica, da forma como ela permeou a sociedade como um todo em todos os níveis, em todos os quadrantes, não é só uma coisa da classe mais baixa ou da classe mais alta, mas de todas. Você tem o advogado, o médico, o mendigo. Tem todo mundo. Essa imagem fotográfica, a diferença de ser simplesmente uma fotografia solta no espaço, ela pode se tornar uma outra coisa dentro de algum tipo de narrativa artística. Não é que quando tem uma narrativa artística o cara deixa de tirar foto e vira um fotógrafo, não é exatamente isso que eu to falando. Mas a intenção de quem faz alguma coisa com essas imagens fotográficas. Ela deixa de ser do universo privado, do universo da fotografia, e se torna uma coisa das artes plásticas, pública. Então eu diria que a diferença entre tirar uma fotografia e ser um fotógrafo está primeiro em como nasce essa imagem. Porque às vezes a gente simplesmente tira essa fotografia sem nenhuma intenção. E quando a pessoa vira fotógrafa, ela tem um raciocínio pós fotografia. Que não tem nada a ver com qualidade, porque a fotografia pode ser uma merda tecnicamente mas pode ter um discurso por trás dela depois, na pós fotografia.

- Qual a diferença de ver o mundo através dos olhos e através da objetiva?

O olho é subjetivo. E o principal objetivo da objetiva é dar vazão a subjetividade do pensamento de quem está por trás da câmera. Porque a gente não fotografa com o olho e nem com o dedo. A gente fotografa com o pensamento. Isso é uma coisa muito subjetiva. Então parece uma contradição de termos. Quer dizer, você materializa de uma certa forma, objetivamente, através de uma objetiva, uma câmera, um aparato mecânico, uma subjetividade do pensamento. O mundo é visto quase que prioritariamente através dessa objetivação da subjetividade do pensamento.

- Você diria então que é como se fosse um filtro que a gente liga e depois não consegue mais desligar?

Um filtro é um boa analogia. É um pouco isso. Você vê através de um filtro.

- Você acha que uma foto pode mudar o mundo?

Pode. Porque uma fotografia pode mudar a consciência. As mudanças mais permanentes do mundo não foram através de guerras, foram através da mudança de consciência. Na Segunda Guerra Mundial, depois do Churchill tomar bomba na cabeça dos nazistas durante dois anos, sozinho, ele ficou resistindo. Essa resistência do Churchill, - você imagina que os americanos só entraram na guerra dois anos depois. Hoje em dia a gente não consegue conceber, é um negócio meio ridículo, historicamente falando - proporcionou uma nova consciência. Então quando você tem uma imagem, por exemplo: uma imagem sozinha é muito difícil de mudar a consciência de uma pessoa ou mais. Mas um conjunto, muito provavelmente. Existe uma foto muito famosa feita por um fotógrafo vietnamita chamado Nick Ut, que é daquela garotinha nua de 12 anos correndo, sendo queimada nas costas com Napalm. Aquela foto é extraordinária por vários aspectos. Um dos aspectos mais importantes é que aquela fotografia específica ajudou a mudar a consciência da classe média americana. Daí que a coisa começou. Os americanos só conseguiram entrar na guerra porque a classe média tava pressionando através, entre outras coisas, dessa imagem específica. Não só essa, mas outras fotos do Vietnã. Porque o Vietnã foi a primeira guerra que foi coberta jornalisticamente com fotografia colorida. E as fotografia coloridas eram prioritariamente, as que iam mais longe na revista Life. E a Life, durante a Guerra do Vietnã, tinha uma tiragem de mais ou menos dez milhões de exemplares. O que é muita revista. Mas o que é mais impressionante é que cada exemplar da Life era visto por mais ou menos 10 pessoas. Ou seja, 10 milhões viravam 100 milhões de pessoas que viram a Life. Então a fotografia do Vietnã na Life era colorida, e era até esteticamente interessante, bonita. Então pro americano, a revista Life era meio que um Jornal Nacional, quer dizer, a classe média americana se guiava pelo que tava lá. Quando ela começou a ver os próprios filhos sendo dilacerados, explodidos, enfim, uma mudança de consciência. Então eu acho que um conjunto de fotos ou uma foto podem sim ajudar a mudar o mundo através da consciência.

- A gente passou por período da foto analógica pra foto digital e hoje tem um momento que a foto tem um aspecto mais social com as redes sociais, pois todos temos uma câmera no bolso pronto para compartilharmos momentos. Como você enxerga essa transição?

É uma mudança muito radical que a gente ainda não tem uma noção completa do que vai acontecer daqui pra frente. Todo mundo acha alguma coisa. Eu também acho alguma coisa. O que surpreende é a quantidade de surpresas continuamos tendo o tempo todo. Eu por exemplo acabei de vir de uma loja consertar meu celular e levei outros 5 celulares pra trocar. O cara me olhou e teve um do qual ele riu, ele disse "Esse aí não dá mais. Esse aí a gente joga fora, vai custar mil reais". Todos esses aparelhos fazem imagens. Eu acumulei seis celulares em dois anos. É uma coisa louca. É muito rápida a tecnologia. E dentro dessa tecnologia está embutida a imagem fotográfica. A imagem fotográfica passou a não ser só uma representação bidimensional do real, visível, do que a gente vê. Não exatamente do que a gente sente, mas do que a gente vê. Passou a ser, literalmente, pocket, está sempre dentro do nosso bolso. E ele é uma extensão da gente. É uma extensão do nosso mundo.

- Isso foi quase McLuhiano [risos]

Só que ele falava isso há sessenta anos. E o cara era do Canadá. Ele não tava nem no centro do pensamento filosófico sobre a imagem. Esse cara é impressionante. Mas ele tinha uma frase que eu acho extraordinária que ainda se aplica hoje: o meio é a mensagem.

- A gente escreveu um texto sobre isso essa semana. Falando que a gente não pode dissociar a mensagem do meio no qual é veiculada. O meio faz parte da narrativa. É a moldura da sua narrativa.

Exatamente. E aí a gente dando um F5 nessa frase do Mcluhan, atualizando pra agora: o meio é a mensagem? Claro que o meio é a mensagem, sempre foi. O meio sempre foi a mensagem. A gente deixou isso explícito. Só que agora o meio é a gente mesmo. Em que sentido? Você tá fazendo um blog, tudo bem, é um blog da Vintepoucos, mas poderia ser um blog do Monclar. Você é o seu próprio megafone. E o seu megafone está muito atrelado a imagem fotográfica. Porque a imagem fotográfica está dentro do celular, que é o principal aparelho com o qual você interage o dia inteiro praticamente. Eu falei o negócio do celular porque eu fiquei pensando muito nisso. Daqui a uns cinco anos pode ser que essa cena se repita. Eu vá lá na loja e fale "Pô, meu celular quebrou o que eu faço com esses todos aqui?". Provavelmente daqui a cinco anos o celular vai ser um mini projetor, vai fazer holografia, vai gravar em 4k, sei lá.Talvez ele nem exista mais dessa forma. Talvez seja um relógio, a gente não sabe. Então a imagem fotográfica nesse sentido ela não só faz parte do meio, ela é o próprio meio. Só que quem opera esse meio somos nós mesmos. É uma misturada danada. A gente vai misturando uma coisa que é virtual, que não existe. Porque a imagem fotográfica, hoje em dia, ela não existe, ela é digital, não está em lugar nenhum, está em todos os lugares, na nuvem. Com essa coisa física, de ser uma extensão da gente. Ou seja, como Chaplin fez naquele filme, o Tempos Modernos, está virando a própria máquina. E a máquina está virando a gente. Eu acho que a gente foi por um caminho... Qual era a pergunta original? [risos]

- A pergunta original era como foi a sua transição do analógico pro digital. E como a gente caiu nesse papo de futurologia da imagem eu imaginei que adaptar seria mais interessante.

Eu acho que a gente não tem como prever o que vai acontecer. Agora, a mudança em termos de filosofia da imagem, em termos de raciocinar a imagem fotográfica, é que antes era uma pensamento totalmente diferente do que a gente vê hoje. Porque antes você clicava e ia ver muito depois. Agora você vê na hora. Não há quem não faça isso. Inclusive existe um movimento de vários fotógrafos do mundo todo e não só ligado a fotografia, mas ligado ao mundo como um todo chamado Slow Life. É uma atitude em relação a esse passo acelerado que a gente vive hoje em dia. Existe Slow Food, Slow Art, Slow Photography. E o que é esse Slow Photography? É você voltar nesse processo analógico. Você voltar mais atrás, no século XIX, você fazer suas próprias placas de vidro. Isso tá virando uma tendência.

- Existe até um exercício proposto em fotografia digital que é de você tampar o visor da câmera para te forçar a pensar mais a composição antes de bater a foto. Pra você não olhar logo depois do clique, tirar milhares de fotos do mesmo objeto e puxar a melhor.

É você com você mesmo. Não é você através do aparelho.

- E pra encerrar. Fotografia é:

É um pouco clichê, mas fotografia é a minha vida. Porque como eu comecei muito cedo e faço isso há muito tempo e acabei me metendo em vários campos da fotografia. Já fui fotógrafo de produto, de culinária, de moda. Fui fazendo várias coisas. Virei editor. Então pra mim é uma coisa que foi virando a minha vida. No meu caso é muito a minha vida. Não é que seja a minha vida, porque a fotografia não tem importância nenhuma. Não tem a menor importância em termos de vida, realmente. É a vida. Porque a minha vida, as coisas importantes da minha vida são a minha esposa, o meu filho, meu pai, minha mãe, todas as relações, esses movimentos. Isso que é o importante. Não é ganhar dinheiro pra caceta ou ser famoso. Isso tudo é interessante, bom, legal e vai proporcionar muita coisa pra gente. Mas não é isso o importante. Mesmo. No sentido de que a fotografia acabou permeando tanto a minha vida em todos os aspectos que virou um pouco a maneira como eu interajo com o mundo, com as pessoas. Virou uma coisa muito mais ampla do que eu esperava no começo.

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